História

POR Kevin Wolff Mamede 03/11/2015

O início de um colégioKevin W. M.

14 de novembro de 1928. Provavelmente, uma tarde quente e abafada. Num pequeno município do Rio Grande do Sul, dois homens encerram uma transação comercial. Um vendeu um pedaço de suas terras, uma fazenda. O outro a comprou. Belo terreno às margens do rio dos Sinos. Há pressa , já que o dia seguinte é feriado nacional. Finalmente, o negócio está encerrado. Ernesto Bergold, o vendedor e Abraham Classen Harder, o comprador, estão satisfeitos e apertam-se as mãos. Foi um bom negócio. Especialmente para o sr. Harder. 15 contos de réis de entrada e o restante em prestações anuais, com pequeno juro, até completar-se o total: 95 contos de réis. Nascia, nesse momento, o Instituto Adventista Cruzeiro do Sul. Não com este nome, é claro. Aliás, nome, ainda não havia nenhum. Ou melhor, havia sim. Havia um nome: sonho! O sonho de Abraham C. Harder... o sonho de sua esposa Mary V. Harder! Os Harder, casal de missionários americanos, chegaram ao Rio Grande do Sul em 1922. Trabalharam antes 
no Canadá. Foram, então chamados para trabalhar no sul do Brasil. Era um desafio. Novos costumes, nova língua, povo diferente. Mas eles não temiam desafios e imediatamente aceitaram o urgente chamado. Pastor Harder deveria ser o presidente da Associação Sul-riograndense que, na época, denominava-se Associação dos Adventistas do Sétimo Dia no Rio Grande do Sul. Assim, o casal e os seus filhos Leon e Palmer, depois de longa viagem de navio, chegaram a Porto Alegre, capital do estado.

Mais tarde em 1925 nasceria o filho mais novo, Neander, o brasileirinho. Em suas primeiras viagens pelo estado gaúcho, o missionário notou que havia muitos e muitos jovens nas igrejas por onde passava. As escolas paroquiais eram poucas. Assim mesmo, ofereciam apenas os ensinos elementares. Quem quisesse um pouco mais de preparo, especialmente para trabalhar na Obra do Senhor, teria de ir ao Colégio Adventista de São Paulo. Tudo, porém, era muito difícil. Enfrentar uma viagem de 4 dias, em trens desconfortáveis, era uma odisséia. Além do mais, muitos jovens não tinham preparo suficiente para acompanhar os estudos em São Paulo. Poucos eram os que conseguiam receber melhor educação e suficientes conhecimentos para que pudessem trabalhar como obreiros, objetivo principal da existência do Colégio Adventista. Tais fatos deixaram Abraham Harder muito preocupado.

De tradicional família de educadores (seu avô e seu pai o haviam sido), ele começou a pensar na possibilidade de construir um colégio de internato, onde os jovens pudessem morar, recebendo também melhor preparo para continuar os estudos, ou para trabalhar na Obra Adventista. Enfim, onde pudessem receber orientações seguras para a vida. Nascia assim o sonho de Abraham Classen Harder! Suas mais caras esperanças, ele as depositou nesse sonho. Em imaginação, via já um grupo de jovens, moços e moças, num ambiente agradável, trabalhando e estudando. O sonho já existia. Agora, era orar para que o Senhor o auxiliasse a elaborar os planos para que a realidade se concretizasse.

Ao apresentar o plano a seus superiores, recebeu resposta negativa. Não havia dinheiro para um empreendimento de tal envergadura. Além do mais, já havia o colégio de São Paulo, para o qual se mandava periodicamente um auxílio financeiro. Escola aqui? Nem pensar! O missionário insistiu mais algumas vezes. Mas a resposta dos superiores era sempre a mesma: não! Por fim, recebeu ordens severas de não falar mais no assunto. Ele não falou mais, mas o sonho ficou-lhe no coração. E a cada dia, tornava-se mais intenso.

Visitando as igrejas, ao olhar para aqueles rostos jovens que pareciam suplicar-lhe que providenciasse uma escola para eles, o pastor se angustiava e o sonho queimava-lhe o coração. O que fazer? Finalmente, ele e a esposa chegaram a conclusão de que não podiam mais esperar. Se quisessem providenciar uma escola, teriam que agir sozinhos. Não tinham com quem contar. Pois bem! Contariam com Deus. Sabiam que Ele não falharia. Estavam orando ardentemente. Certamente, do céu, lhes viria a ajuda necessária. Fariam sua parte, se Deus lhes desse as bênçãos de que precisavam.

O pastor Harder era um homem de oração. Durante os anos em que o sonho florescia, ele orava constantemente pedindo orientação divina. Agora ,no auge da angústia, orava mais e mais. Até que certa noite... Deixemos que o próprio pioneiro nos conte... "Porém, certa noite, após longas horas em oração sobre este assunto, um anjo apareceu ao meu lado dizendo: -- ‘Não temas! Segue de perto os desejos do teu coração. O Senhor te susterá e a obra prosperará.’ (1) Não havia mais por que temer... O sonho se tornaria realidade. O Senhor o dissera por intermédio de um anjo. Um pouco mais de esforço... mais um pouco apenas. Foi quando a senhora Harder ofereceu ao esposo uma herança que recebera por morte de sua mãe. Ela pretendia guardar um pecúlio para outros tempos. Mas, alegremente empregaria seus bens para que o desejo ardente do esposo ( e seu também ) se realizasse. O Senhor cuidaria do futuro.

Depois de pesquisar, o missionário achou que a região de Taquara era um bom lugar para o estabelecimento de um colégio. Estava perto de Porto Alegre, perto de várias igrejas e havia ali uma boa propriedade que poderia servir para o futuro internato. A família Bergold, poderia desfazer-se de uma fazenda próxima do local onde tinham um sanatório. Então, a compra foi efetuada. O colégio dos sonhos do pastor Harder tornava-se realidade. A fazenda tinha gado, cavalos, muitas árvores frutíferas e até uma junta de bois para o trabalho. Uma casa foi alugada nas proximidades. Ali, a família se instalou e recebeu os primeiros alunos.

Ernesto Roth, jovem idealista, jovem idealista, vindo da Alemanha, foi convidado para ser o primeiro professor. Pastor Harder adquiriu a madeira de casa que fora desmanchada. Custou-lhe 1 conto de réis. Com essa madeira, Roth, exímio carpinteiro, construiu o prédio de aulas. Na parte superior, havia acomodações para o professor e algumas dependências para alunos. O professor confeccionou também as carteiras 11 de março de 1992! Primeiro dia de aulas do " Collegio Cruzeiro do Sul. " Eram 27 alunos de várias idades... A Escola, agora, já tinha um nome. Um bonito nome.

Certa noite, a família, no quintal da casa, olhava o céu estrelado. A beleza do Cruzeiro do Sul chamou –lhes 
a atencão Foi então, que a sra. Harder pensou que "Cruzeiro do Sul" seria um bom nome para a Escola. E assim foi. Uma escola adventista que não pertencia à Organização. Pertencia a um homem e a uma mulher idealistas. Além de Ernesto Roth, o professor, havia, no primeiro ano, mais dois auxiliares, idealistas com os outros: Mathilda Köhler e Hugo Bergold. Ela auxiliava a sra.. Harder em todas as lidas. Ele administrava a fazenda. Nos dois primeiros anos, a missionária dirigiu quase sozinha a sua Escola. O esposo continuava como presidente da Associação e, por vezes, ficava bastante tempo sem poder vir a casa. Quando um novo presidente assumiu o seu lugar, pastor Harder pôde dedicar-se integralmente à Instituição que fundara. Nem tudo foi fácil.

Os primeiros alunos internos ( no primeiro ano, só rapazes) eram muito pobres. Pagavam suas despesas com trabalho. O missionário montou uma fábrica de queijo e de manteiga. O gado era bom e produzia bastante leite. Na fazenda, plantava-se tudo. Galinhas eram muitas. Todos trabalhavam com dedicação. Assim, uma ou duas vezes por semana, os meninos Harder e mais alguns alunos iam à cidade vender aquilo que se produzia na Escola. Os produtos eram bons e, logo, a freguesia era grande. Várias crises ocorreram, no entanto. Era a época da grande depressão econômica que abalou o mundo em 1929 e 1930.

Certo ano, os gafanhotos atacaram as plantações, especialmente a de milho. A farinha de milho eraessencial à alimentação dos alunos. Por sete vezes, tiveram de plantar o milho. Na sétima vez, Deus foi bondoso. Os gafanhotos não viram mais e a produção foi farta. Por vezes, as dificuldades pareciam intransponíveis. Certa vez, o alimento se acabou. Embora tivesse crédito na cidade, o pastor Harder não quis valer-se desse recurso, uma vez que já devia muito dinheiro a vários negociantes. Então, certa noite, a esposa lhe disse que havia usado os últimos alimentos para preparar o jantar. Na manhã seguinte, não haveria o suficiente para os alunos comerem. Os jovens foram dormir sem ter conhecimento do problema. O pioneiro, preocupado, foi repartir com Deus o seu problema. Enquanto orava, sentiu alguém colocar-se a seu lado. Esta pessoa lhe disse que ficasse tranqüilo. O alimento não haveria de faltar até que a crise passasse. Na manhã seguinte, milagrosamente, havia alimentos suficientes na despensa. E houve, realmente o necessário até o final da crise. Um anjo, outra vez, em socorro do servo de Deus. Como já se disse, os alunos eram muito pobres.

Os rapazes trabalhavam na lavoura, no laticínio; as moças ajudavam na cozinha, na lavanderia e, quando havia necessidade, ajudavam também na roça. Apesar de trabalharem bastante, muitos não tinham dinheiro para roupas. Muitas vezes, a sra. Harder e Mathilda Köhler, desmanchavam sacos de açúcar e de farinha, tingiam-nos e, com eles, confeccionavam roupas para eles. Na Escola, o ambiente era familiar. No segundo ano, vieram também moças para o internato. Uma velha casa foi adaptada para servir-lhes de dormitório. Todos trabalhavam e estudavam com alegria. Leon Palmer e Neander dividiam, sem problemas, o pai e a mãe com os outros. Eram todos como irmãos. " Papai Harder e mamãe Harder " pertenciam a toda família escolar. E assim eram tratados pelos alunos. Mamãe Harder era amiga e conselheira. Papai Harder dosava amor com firmeza. Se havia problemas, orar era o melhor caminho. Se era necessário afastar um aluno do internato, o fato doía no coração de todos.

Em 1932, formou-se a primeira turma. Apenas 7 alunos! Com que emoção e carinho, papai Harder olhava aqueles seus filhos! As primícias de seu sonho! 7 símbolos do esforço humano colocados nas mãos benfazejas do Senhor. O "Collégio" Cruzeiro do Sul cresceu. A partir de 1930, o número de alunos aumentou. Foi necessário chamar-se mais professores. A vida espiritual era levada muito a sério. Nos primeiros tempos, a família colegial ia assistir às reuniões sabáticas na igreja de Taquara. Os rapazes iam a pé e as moças, de carroça. Como aumentasse o número de alunos, a igreja foi ficando pequena para acomodá-los. Construiu-se então a primeira igreja do Collégio. Chamou-se "Igreja Cruzeiro do Sul." Em 1935, o casal Harder já sentia o peso de tantos anos de luta. Mamãe Harder, adoentada, já não tinha mais o mesmo vigor de outrora.

A Associação Sul – riograndense interessou-se pela Escola. Ofereceu-se para ajudar a administrá-la e a ajuda foi aceita. Em 1936, Abraham Classen Harder doou a Escola de seus sonhos. A fazenda estava paga. Tudo funcionava bem. Assim, ele vendeu o laticínio e algumas máquinas, para ter como recomeçar a vida. As terras, as construções passaram graciosamente à Associação. O presente de amor do pioneiro. Ele permaneceu por mais dois anos na Escola, embora houvesse um novo diretor, ele cuidava da parte econômica. A Associação adquiriu o restante das terras da família Bergold. Mais 25 hectares acrescentados aos 20 doados pelo pastor Harder. Veio para substituí-lo o D. Otávio Espírito Santo, jovem sergipano. Sua esposa Micol era excelente professora. Por dois anos, o missionário trabalhou ao lado de seu substituto. Foi seu braço forte. Em fins de 1938, o casal Harder despediu-se para sempre de sua escola e do Rio Grande do Sul O novo diretor empenhou-se em oficializar o Colégio. Era uma exigência do governo. E ele conseguiu. Em 1938, oficializada, a Escola passou a se chamar "Ginásio Adventista de Taquara." O Ginásio continuou a crescer. Mais prédios, mais alunos, mais professores. Em 1943, construiu-se o prédio central. Entre 46 e 47, foi construído o dormitório feminino. Em 1954, foi reformado o dormitório masculino. No início da década de 60, a Escola passou a se chamar Instituto Cruzeiro do Sul - ICS. Algum tempo depois, chamou-se Instituto Adventista Cruzeiro do Sul – IACS.

A Escola do sonho do pastor Harder chega aos 85 anos fiel aos ideais daquele homem de Deus. Aquele homem que enfrentou a tudo e a todos para conquistar o seu ideal: instituir um refúgio para a juventude. Há muita gente ansiosa por encontrar os pioneiros no céu. Então, emocionados, muitos filhos desta casa irão dizer-lhes comovidos: - Obrigado, papai Harder! Obrigado, mamãe Harder!

(Aparecida Macedo)